Canelite: por que a dor na tíbia aparece (e como sair dela)
Canelite é o nome popular para a síndrome do estresse tibial medial (MTSS, do inglês medial tibial stress syndrome) — a lesão mais frequente em corredores iniciantes e a principal causa de dor na borda interna da canela durante e após o exercício.
Apesar de parecer uma condição simples, tem nuances importantes: quando mal manejada, pode evoluir para fratura por estresse da tíbia — uma lesão mais grave que exige imobilização e afastamento prolongado.
O que acontece no osso
Por muito tempo, a canelite foi atribuída à inflamação do periósteo (membrana que reveste o osso) por tração muscular. Estudos de imagem mais recentes, incluindo ressonância e cintilografia, demonstraram que o processo envolve remodelação óssea acelerada — o osso não consegue se adaptar na mesma velocidade em que a carga é aplicada, gerando edema na medular óssea e microdanos no córtex tibial.
É um espectro: no extremo mais leve está a síndrome do estresse tibial medial; no extremo grave, a fratura por estresse.
Como diferenciar canelite de fratura por estresse
| Canelite | Fratura por estresse | |
|---|---|---|
| Dor | Difusa, ao longo da borda tibial | Pontual, localizada num ponto |
| Comportamento | Melhora com aquecimento | Piora progressiva durante corrida |
| Dor ao repouso | Rara | Pode ocorrer |
| Sinal do salto | Geralmente negativo | Frequentemente positivo |
| Diagnóstico | Clínico | Ressonância ou cintilografia |
Quando há suspeita de fratura por estresse, o diagnóstico de imagem é indispensável — o raio-X pode ser falso-negativo nas primeiras semanas.
Fatores de risco
Uma revisão sistemática publicada no British Journal of Sports Medicine identificou os principais preditores de MTSS:
- Sexo feminino (maior risco)
- IMC mais elevado
- Histórico de canelite prévia
- Pouca experiência de corrida
- Maior pronação do pé
- Aumento rápido de volume de treino (o fator mais modificável)
Tratamento
Redução de carga — não parada total
A redução do volume de corrida é necessária, mas o objetivo é encontrar o nível de carga que não provoca dor — e manter atividade nesse limite. Atividades de baixo impacto (natação, ciclismo) podem ser mantidas durante a recuperação.
Progressão gradual de retorno
A regra mais prática é a regra dos 10%: não aumentar mais de 10% do volume semanal a cada semana. Em pacientes que estavam sobrecarregados, o retorno começa abaixo do volume que causou a lesão.
Fortalecimento e controle neuromuscular
Déficits de força nos músculos do quadril (abdutores) e da panturrilha contribuem para o estresse tibial. Um programa de fortalecimento progressivo reduz a recorrência.
Palmilhas e calçado
Evidências moderadas apoiam o uso de palmilhas absorvedoras de impacto em pacientes com pronação excessiva. A escolha do calçado deve ser individualizada — não existe um modelo universal correto.
Terapia por ondas de choque
Estudos preliminares sugerem benefício das ondas de choque na MTSS, possivelmente pelo estímulo à remodelação óssea e redução da dor. Ainda há menos evidência que para tendinopatias, mas é uma opção em casos persistentes.
Quando voltar a correr
Em casos típicos, a melhora ocorre em 2 a 6 semanas com manejo adequado. O critério não é ausência total de desconforto, mas capacidade de completar a sessão planejada sem dor durante ou após. A recorrência é comum quando o atleta retorna prematuramente ou não corrige os fatores de risco subjacentes.
Atendimento em São Paulo
Dr. Caio Yano atende pacientes com dor musculoesquelética presencialmente em São Paulo, no bairro do Ipiranga, e também na Clínica Vertz (Itaim Bibi). Consultas online estão disponíveis para todo o Brasil. O agendamento é feito diretamente pelo WhatsApp.